Silvia Okun ... Klang.Som.Sound

Kritik vom 23.10.2003

Autor / Medium: Simone de Mello para a Deutsche Welle sobre o CD - Violão de Dois

CD experimental resgata repertório brasileiro
Compositores Chico Mello e Silvia Ocougne temperam música experimental com canções brasileiras, em CD ao vivo, gravado em petit comité, em Berlin.
Uma música como Garota de Ipanema já não se ouve mais, apenas se recorda. Afinal, os nossos ouvidos já estão tão acostumados com a melodia e o timing de gravações clássicas, que a memória canta mais alto do que o som. Silvia Ocougne, de São Paulo, e Chico Mello, de Curitiba, compositores de música erudita contemporânea, residentes em Berlim há quase 15 anos, dispõem de uma série de artifícios para estranhar o repertório popular brasileiro, a ponto de as canções se tornarem novamente audíveis, sem o filtro da familiaridade. O humor do duo, que já trabalha em parceria desde 1987, é apenas uma de suas armas.
Radio Days — Ouvir Violão de Dois é como girar o tuner do rádio em movimento aleatório. Assim como o processo de sintonizar as estações seqüencializa fragmentos de música, fala, silêncio e os ruídos da mídia, as colagens de Chico Mello e Silvia Ocougne reprocessam temas musicais brasileiros, incorporando todas as "interferências".
John Cage na Praia, cujo título explicita uma referência central dos compositores, não é o único exemplo disso. Todo o CD, gravado ao vivo, quebra a hierarquia de som instrumental e vocal, composição, improvisação e bate-papo, integrando ao fluxo musical a prosódia dos textos falados e as conversas com o público como interlúdio. É neste contexto que se revela a ironia da Novela de Rádio, em que a canção A mulher que ficou na taça, de Francisco Alves e Orestes Barbosa, é submetida a uma pseudo tradução simultânea para o alemão.
O Brasil não é longe daqui — Silvia Ocougne e Chico Mello não só traduzem o repertório popular brasileiro para a audição dos apreciadores de música contemporânea e experimental, mas também resgatam, à distância do Brasil, a própria memória cultural. "Ai, ai, Maria, sai da lata e vem prá mesa": só sendo brasileiro para entender a graça dos jingles contrabandeados na música, a paródia dos diversos registros da fala brasileira e outras referências locais.
Porém, mesmo sem compreender todas as referências, um alemão que não conheça de perto o Brasil reconhece em Violão de Dois uma música "autenticamente sul-americana, descontraída, tropical e cheia de charme erótico e encanto exótico". A versão silábica de Garota de Ipanema, por exemplo, mostra como o duo opera como veículo de tradução ou transliteração de hits brasileiros, sem decepcionar quem esteja esperando ouvir João Gilberto.
O transporte da música — Funcionando como processador intermusical, o duo estabelece uma conexão direta entre os mais variados códigos sonoros, à medida que destaca a materialidade da música como mídia temporal. Em Maria Fumaça, Take the “A” Train, de Billy Strayhorn, é reportado à estrada Madeira-Mamoré e o tema musical é distendido ad infinitum, até se dispersar na paisagem sonora.
Apesar da marcação ritmada da caixa de fósforos, o Trem das Onze de Adoniran ora se adianta, ora se atrasa, numa vocalização que parece jogar com as variações de rotação de um disco. Fazendo jus ao princípio do acaso, um bonde passa na rua no momento do show e deixa um rastro na gravação, algo que certamente agradaria a John Cage.
Cultura do sarau e experimento — A gravação de Violão de Dois foi feita na sala de estar do produtor Dietrich Eichmann, que organiza saraus musicais em Berlim, lançando os concertos pelo seu selo oaksmus. A idéia é registrar os eventos com a espontaneidade do momento, sem mascarar a gravação original com quaisquer recursos de pós-produção. Este contexto de gravação, que destaca a espacialidade do som e as improvisações com o público presente, mostra um outro ângulo do trabalho de Chico Mello e Silvia Ocougne, que em seu CD anterior, Música Brasileira De(s)composta (Edition Wandelweiser Records, 1996), já tinham resgatado o repertório brasileiro como material da música experimental.
Confira outras faixas do CD Violão de Dois no site da gravadora: www.oakmus.de
Simone de Mello para a Deutsche Welle sobre o CD - Violão de Dois - de Silvia Ocougne/Chico Mello, 2003